
que significa historiar hoje? como os mecanismos de armazenamento e transmissão de informação modificam a maneira como a memória humana opera? essas são algumas das questões que o projeto loci tenta abordar.
o nome vem do substantivo plural do termo latim locus, que encontra significado em um extenso conjunto de conceitos, tais como lugar, situação, estado. o projeto foi apresentado no sábado dia 16 de julho, no espaço de memória la perla, como parte da residência demolición/construcción. ainda em estágio de desenvolvimento, a aplicação web foi apresentada como protótipo, para que fosse sujeita a discussão em conjunto com os demais artistas e estudiosos participantes.
basicamente, meu aporte ao assunto da residência não considera o que vou aqui denominar como ‘aspectos mais icônicos’, ou seja, toda a imagem aparente que se pode associar ao contexto da ditadura militar argentina – que na prática durou pelo menos 20 anos. em troca, adotei uma concepção de giorgio agamben acerca da impossibilidade de conceber o inumano. preferi assim abordar o que considero problemas mais amplos, que residem nas intersecções entre memória, arte e política. esta concepção gradualmente tomou forma durante minhas leituras de o que resta de auschwitz, de agamben, e cultura_RAM, de jose luis brea. baseado na idéia de testimônio como “uma relação entre o dizível e o indizível” e de arquivo como “um sistema de relações entre o dito e o não dito” (AGAMBEN, 199: p. 45), a questão das dimensões de memória na contemporaneidade me pareceu bastante digna para a temática da residência.
propus assim uma meta-mídia que referencia algumas características de modelos computacionais e humanos de arquivamento e resgate de informação. como lembra luis brea, depois dos meios eletrônicos e digitais, a memória humana passa a adaptar-se a uma complexa realidade imposta pela paisagem midiática, em uma corrente transformação de um mecanismo que recuperação para um canal de julgamento de experiências recentes e simultâneas. neste sentido, o aspecto moralizante da memória – a iconização do passado – tem decaído em favor de necessidades mais urgentes, como a preterização do futuro e um entendimento construído em rede de padrões informacionais instantâneos e em constante metamorfose. assim, luis brea relaciona as ‘obsoletas’ formas de história com a memória computacional de tipo ROM (Read Only Memory), e discursa sobre um panorama mais recente que pode ser metaforizado como uma memoria de tipo RAM (Random Access Memory), ao afirmar que a noção de verdade histórica como produto da sua materialidade – é dizer, formas arquiváveis de cultura – ou de sua provabilidade – o testimônio de grupos específicos – está dando lugar a uma rede sistemática de processos inter-projetivos, dos quais emergem perspectivas antes marginalizadas pela história institucionalizada, que interagem entre si e propõem alternativas multi-discursivas do que é status quo. neste sentido, se algo é verdadeiro ou não, pouco importa: desde que este algo tenha poder afetivo e capacidade de transitar por diferentes redes, então é digno, não importando a natureza de seu discurso.

loci sugere uma desterritorialização de formas objetivadas de história: arquivos de diferentes formatos digitalizados de mídia (rádio, televisão, jornais, livros, et cetera) são processados por um software que opera em três níveis. o primeiro é matemático, um contínuo fluxo de texturas de dados que são resultados instantâneos de cálculos algorítmicos, justapondo e sobrepondo diferentes camadas e tipos de mídia; o segundo é linguístico, o qual relaciona os meta-dados associados a toda informação presente no banco (como datas, nomes, palavras relacionadas), reconfigurando a rede semântica no seu nível textual e interferindo diretamente no que é “lembrado”, ou seja, no que emerge como interface; o que caracteriza o terceiro nível de operação, o perceptivo: imagens, textos e sons fragmentados, um contínuo devir de descontinuidades. Uma meta-forma.
o banco de dados para a versão 1.0 de loci contém exemplos de informação que corria pelos meios de massa da argentina dos anos 70 e 80, período profundamente marcado pela repressão sistemática do governo militar na comunicação em geral. grande parte deste material foi obtida durante pesquisa no archivo provincial de la memoria de córdoba, no cispren e no archivo del servicio de radio y televisión de la universidad nacional de córdoba. tive também a ajuda de amigos que colaboraram com referências culturais populares da época. um pouco de youtube também não caiu mal
esse banco de dados não é de forma alguma permanente ou único. loci não será caracterizado pela informação que gerencia, mas pela própria in-formação como uma metáfora sistemática de processos de memória contemporâneos. isso significa que, em versões futuras, loci terá a capacidade de carregar diferentes bancos de dados e integra-los a outros disponíveis na rede.

em outras palavras, loci é proposto como uma proto-memória, uma máquina de recordar que, em seu curso, gera ficções e contra-fatos (ou hiper-fatos, como gostaria de denominar) ao salvar suas “memórias” distorcidas pelo processo como novos “fatos” no banco. não obstante, loci busca por informações presentes em bancos abertos na web por intermédio de APIs (Application Programming Interfaces) de serviços como flickr ou twitter, estendendo seu espectro histórico e semântico a outros limites, talvez a lugares próximos do que wittgenstein definiu como barreiras de linguagem.
a aplicação estará disponível na web assim que a versão 1.0 esteja pronta, o que deve acontecer nas próximas semanas. seu lançamento será anunciado neste blog. o desenvolvimento está sendo realizado em processing, e o código-fonte da aplicação estará disponível na mesma página.
mais detalhes quanto ao processo de desenvolvimento serão revelados logo. é também de minha intenção publicar aqui um texto que suporta conceitualmente algumas das questões tratadas pelo projeto (conforme anunciei a um par de semanas atrás).
a apresentação do projeto foi muito construtiva precisamente pelo retorno obtido dos outros artistas e pensadores presentes, e gostaria de deixar um grande obrigado a todos por isso. um agradecimento especial vai para lina lopes – quem eu também gostaria de agradecer pela maioria das fotos da apresentação -, gabriela halac, graciela de oliveira e eugenia almeida pelo seu interesse e contribuição aos assuntos do projeto. e obrigado também a ángel poyón, fhernando poyón e edgar calel pelos excelentes intercâmbios de idéias que tivemos durante nosso tempo de estadia na fundación pluja, a qual gostaria de agradecer pela hospitalidade.
gostaria também de agradecer ao espacio de memoria la perla, ao cispren, ao archivo provincial de la memoria de córdoba e a universidad nacional de córdoba pelo seu apoio à pesquisa.
e claro, um enorme agradecimento a graciela de oliveira e a soledad sanchez pela predisposição em organizar a residência phronesis criolla.
aqui estão imagens e um vídeo do dia da apresentação de loci. fiquem ligados no blog para os próximos passos do projeto.